Na semana em que Campo Grande celebra seus 127 anos, a vereadora Luiza Ribeiro (PT) apresentou na Câmara Municipal o Projeto de Lei Legislativo nº 12.528/2026, que reconhece Maria Carolina de Oliveira e Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, como cofundadoras do município. A Capital completa 127 anos nesta quarta-feira, 26 de agosto, e a proposta busca ampliar a memória oficial sobre a formação da cidade, reconhecendo a participação de mulheres que tiveram papel importante em sua construção histórica, social, territorial e cultural.
A iniciativa preserva o reconhecimento histórico de José Antônio Pereira como fundador de Campo Grande. O objetivo, segundo Luiza, não é substituir ou diminuir a importância de sua trajetória, mas reconhecer que a formação de uma cidade é resultado da participação de diferentes pessoas, famílias e comunidades.
“Não se trata de apagar uma história, mas de ampliar a nossa memória. Campo Grande foi construída por muitas mãos, e é fundamental que as mulheres que participaram desse processo também sejam reconhecidas. Maria Carolina e Tia Eva fazem parte dessa história e precisam ocupar o lugar que lhes pertence na memória oficial da nossa cidade”, afirma Luiza Ribeiro.
Maria Carolina de Oliveira esteve diretamente ligada ao núcleo familiar tradicionalmente associado à fundação de Campo Grande. Esposa de José Antônio Pereira, participou do processo de deslocamento e estabelecimento da família no território que posteriormente daria origem ao povoado. Para a vereadora, sua trajetória não pode ser reduzida à condição de esposa ou acompanhante, uma vez que a formação de um núcleo familiar permanente envolvia trabalho, organização, produção e construção de vínculos comunitários.
Já Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, foi uma mulher negra e ex-escravizada que chegou à então Vila de Campo Grande em 1905, acompanhada de familiares e outras pessoas. Na região do Olho d’Água, próxima ao Córrego Segredo, ela constituiu um núcleo familiar e comunitário que deu origem à comunidade quilombola que leva seu nome.
A relevância histórica de Tia Eva já recebeu reconhecimento em documentos oficiais. Projeto de restauração da Igreja de São Benedito e requalificação de seu entorno, desenvolvido no âmbito do Fundo Municipal de Investimentos Culturais, registra Tia Eva como mulher negra e ex-escravizada que contribuiu para a formação e fundação da cidade.
O reconhecimento também ganhou dimensão nacional. Em maio de 2026, a Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus – Tia Eva foi inscrita pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Livro do Tombo dos Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas dos Antigos Quilombos. A inscrição inaugurou o livro destinado especificamente à proteção do patrimônio quilombola.
Após sugestões apresentadas pelos vereadores, Luiza Ribeiro apresentou uma emenda modificativa ao projeto para substituir a expressão “fundadoras e formadoras” por “cofundadoras”. A mudança busca deixar ainda mais explícito que o reconhecimento de Maria Carolina e Tia Eva não exclui outras figuras tradicionalmente associadas à fundação do município.
Com a alteração, o texto passa a reconhecer “Maria Carolina de Oliveira e Eva Maria de Jesus – Tia Eva como cofundadoras do Município de Campo Grande-MS”.
Para Luiza, a mudança reforça o caráter de inclusão da proposta.
“Quando reconhecemos Maria Carolina e Tia Eva como cofundadoras, não estamos retirando ninguém da história. Estamos fazendo justamente o contrário: estamos incorporando novas personagens a uma história que durante muito tempo foi contada quase exclusivamente a partir de uma perspectiva masculina. Reconhecer essas mulheres é fazer justiça à memória de Campo Grande”, destaca a vereadora.
A proposta tem caráter declaratório e histórico-cultural e busca valorizar a memória dos diferentes grupos e sujeitos que participaram da formação do município. Apresentada justamente na semana em que Campo Grande celebra seus 127 anos, a iniciativa coloca em debate uma pergunta sobre a própria forma como a história da Capital é contada e quem são as pessoas que devem ser lembradas como parte de sua fundação.