Crise na saúde de Campo Grande mobiliza audiência proposta por Luiza Ribeiro e aponta construção de pacto institucional

A crise na saúde pública de Campo Grande foi debatida na manhã desta segunda-feira (2), em audiência pública convocada e presidida pela vereadora Luiza Ribeiro (PT), na Câmara Municipal. O encontro reuniu usuários do SUS, representantes de hospitais, trabalhadores da saúde, conselhos profissionais, Ministério da Saúde e Secretaria Municipal, em um debate marcado por dados financeiros, relatos de colapso assistencial e discussão sobre os próximos passos para enfrentar a situação.

Ao abrir a audiência, Luiza destacou que a iniciativa surgiu diante do agravamento dos problemas ao longo de 2025 e da necessidade de transparência. Ela relembrou que, no final do ano passado, a condução administrativa da saúde municipal chegou a ser questionada por ter sido exercida por um comitê sem previsão legal no âmbito do SUS, situação que motivou representações ao Ministério Público. Segundo a vereadora, a audiência não foi convocada para produzir embate político, mas para compreender o cenário e buscar soluções institucionais.

Durante o debate, foram apresentados números que demonstram o volume de recursos destinados à saúde no município. Em 2025, o orçamento executado alcançou aproximadamente R$ 2,25 bilhões. Desse total, cerca de R$ 1,010 bilhão foram recursos próprios da Prefeitura; aproximadamente R$ 927 milhões vieram da União; R$ 187 milhões do Governo do Estado; e cerca de R$ 187 milhões do Governo do Estado. Para a vereadora, os números indicam que o debate não se resume apenas à ausência de recursos (subfinanciamento), mas à forma como a gestão organiza e executa a política pública.

Representando o Fórum das Entidades dos Usuários do SUS, Sebastião Arinos Junior defendeu maior articulação entre os entes federativos e afirmou que há leitos hospitalares disponíveis que poderiam ser contratualizados, citando unidades como o Hospital Universitário e hospitais especializados que possuem capacidade ociosa. Ele argumentou que a atenção primária fragilizada contribui para a sobrecarga hospitalar e pediu consenso entre Município, Estado e União para reorganizar a rede.

O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, relatou que 2025 foi um dos períodos mais difíceis para os trabalhadores da rede municipal. Segundo ele, faltam medicamentos, insumos e até materiais básicos para funcionamento das unidades, havendo casos em que servidores precisaram custear itens essenciais. O Conselho estabeleceu prazo para que a atual gestão apresente melhorias, com nova avaliação prevista para maio.

A situação da rede hospitalar também foi detalhada. A Santa Casa concentrou cerca de 61% dos atendimentos de urgência no último trimestre, respondendo por mais da metade da produção hospitalar da Capital, enquanto ainda enfrenta impasses contratuais judicializados. O diretor da instituição, João Carlos Marchezan, ponderou que eventuais medidas de intervenção precisam ser analisadas com responsabilidade, lembrando experiências passadas que geraram impactos financeiros significativos. Já o diretor do Hospital Regional, Paulo Eduardo Limberger, destacou que a unidade segue atendendo alta demanda de urgência e reforçou a importância da regulação como instrumento estruturante do SUS.

O superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo Costa, apresentou dados do relatório do terceiro quadrimestre e chamou atenção para a necessidade de transparência na execução dos recursos, detalhando os repasses federais e estaduais. O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, reconheceu as dificuldades enfrentadas em 2025, mencionando falhas no abastecimento de medicamentos, problemas na regulação de leitos, necessidade de reorganização administrativa e revisão de fluxos. Ele afirmou que a pasta vive um momento de transição e se comprometeu a apresentar avanços nos próximos 90 dias.

Além dos dados orçamentários, a audiência reuniu relatos sobre a realidade das unidades de saúde. Foram mencionadas obras paralisadas há anos, estruturas precárias dos prédio em UPAs, escassez de exames e falta de medicamentos na Rede de Atenção Psicossocial. Nos CAPS, segundo informado, dos 22 medicamentos psiquiátricos obrigatórios, apenas 8 estariam disponíveis atualmente. Também foi destacada a fila extensa de cirurgias e a ausência de serviços regulares de odontologia em algumas unidades.

Usuários do SUS ocuparam a tribuna para relatar dificuldades no acesso a medicamentos de uso contínuo e a insumos essenciais para tratamento de doenças crônicas, além de longos períodos de espera por leitos hospitalares. Trabalhadores relataram sobrecarga e aumento de situações de tensão nas unidades, reflexo da frustração dos pacientes diante da falta de atendimento adequado.

A possibilidade de intervenção estadual ou federal foi debatida como instrumento legal previsto para situações excepcionais. No entanto, diante da nomeação do novo secretário em janeiro e do compromisso público assumido na audiência, ficou definido o acompanhamento da gestão pelos próximos 90 dias, com participação da Câmara, do Conselho Municipal de Saúde e do Fórum das Entidades dos Usuários. A situação será reavaliada em maio.

Ao encerrar, Luiza Ribeiro afirmou que a audiência cumpriu o papel de organizar informações, dar voz à população e iniciar um processo de monitoramento mais rigoroso da política municipal de saúde. “Estamos tratando de vidas. A cidade investe mais de dois bilhões de reais por ano na saúde. A população precisa sentir esse investimento na ponta, com atendimento digno e regular”, concluiu.

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